Senna – Memórias de um fã

Em algumas culturas por esse mundo fora acredita-se que uma pessoa só morre verdadeiramente quando já mais ninguém se recorda delas. Por essa mesma razão Ayrton Senna talvez nunca venha a morrer, tal como outros grandes nomes da História – Leonardo Da Vinci, Beethoven, etc. Ainda assim, tenho pena que as novas gerações não tenham vivido no tempo de Senna. Não necessariamente para ver o que ele fez em pista, pois isso hoje em dia é possível com a F1TV, mas para sentir como o mundo mudou à conta de um piloto de F1.

Esta frase pode parecer exagero, mas um bom exemplo é o facto de a maior parte das pessoas se lembrarem onde estavam quando souberam da notícia da queda das Torres Gémeas em Nova Iorque, assim como se lembram onde estavam quando viram a notícia do acidente do Senna. Era dia da mãe, eu tinha 10 anos e sei que não vi o Grande Prémio de Imola precisamente porque tínhamos ido almoçar em família. Lembro-me perfeitamente que depois de sairmos do restaurante, enquanto passeávamos por um centro comercial na Póvoa de Varzim, encontrámos um conhecido que nos disse que o Senna tinha tido um acidente e que parecia muito grave, talvez fatal. Não havia telemóveis nem Internet, então não via a hora de chegar a casa e saber o que se tinha passado. Infelizmente a notícia que não queria ouvir estava a ser confirmada.

É difícil explicar o génio de condução de Senna e na verdade já quase tudo foi dito no filme Senna e no tributo especial que o Top Gear fez em 2010, quando Senna faria 50 anos – assim como em múltiplos vídeos que se podem encontrar no YouTube. Mas nós aqui é mais Histórias! E como hoje faz 25 anos que aquele acidente fatal aconteceu, decidi partilhar aqui algumas histórias, para que o Ayrton Senna nunca venha a morrer!

Sendo eu apenas uma criança quando Senna corria, as memórias são já um pouco turvas, mas há coisas que ficam na memória para sempre. O poster do Williams FW16 na parede do quarto é algo que nunca se esquece. O boné azul do “Nacional” com a assinatura imprimida a amarelo no lado que alguém me trouxe de um Grande Prémio do Estoril também ficará para sempre na minha memória, mais que não seja por terem sido tantas as vezes que o usei. O Williams FW16 também fez parte da minha coleção da Bburago, mas curiosamente não existia o carro do Senna, então a escolha teve que ir para o número 0 do Damon Hill – não imaginam o quanto eu pedi e procurei por aquele número 2 com a bandeira brasileira de lado. O funeral, transmitido na televisão, foi também um momento marcante pois estavam 3 milhões de pessoas nas ruas de São Paulo, algo que dificilmente se esquece.

Senna era um grande ser humano fora da pista e isso é inquestionável. Mas dentro de pista ele tinha um temperamento e uma agressividade que não eram bem vistas por muita gente. Lá em casa as opiniões dividiam-se na luta Senna vs Prost e cada Grande Prémio era visto quase como se fosse um derbie de futebol. Para mim Prost era quase como um vilão de um filme do James Bond, o francês astuto e traiçoeiro que tentava estragar os planos ao meu herói. Com o tempo comecei a entender os dois lados da luta, mas a admiração por Senna não desapareceu. Ainda hoje, no tablier do meu carro está um pequeno vinil que é a assinatura dele.

Curiosamente este “autocolante” era bastante visto na traseira de alguns carros no final da década de 90/inícios de 2000.

A determinação daquele campeão é e será sempre uma inspiração para mim. Havia algo de quase sobrenatural nele, era visto quase como uma divindade no Brasil e no Japão, trouxe esperança ao Brasil e o seu sofrimento na vitória em Interlagos em 1991 comoveu toda a gente. Mas mais importante do que tudo isso, ele trouxe a Fórmula 1 para as pessoas e se não fosse ele, a Fórmula 1 não tinha tido o impacto que teve nas décadas de 80/90. O impacto que um simples desportista conseguiu ter no mundo é praticamente incomparável.

Senna estreou-se na Fórmula 1 um mês antes de eu nascer, cresci a vê-lo na TV e a brincar com o Lotus 97T com que ele ganhou o seu primeiro GP, hoje escrevo sobre ele e sei que não será esquecido, pelo menos no Histórias Sobre Rodas.

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