O melhor pior carro de sempre

Drogas, fama, traição e FBI, não é um filme de Hollywood mas ficou famoso nos cinemas – a História do DeLorean DMC-12.
Uma das ideias e filosofias do Histórias Sobre Rodas é a de que por trás de um grande carro, há sempre uma grande história. (Ainda que o carro seja uma valente… mau!) E a História é feita de pessoas, neste caso em particular de uma pessoa: John DeLorean.
John DeLorean era proveniente de uma família de imigrantes sem grandes possibilidades mas que desde jovem se destacou como um brilhante engenheiro industrial e automóvel. Ainda enquanto estudava já trabalhava na Chrysler, e depois de concluir os seus estudos vendeu seguros para melhorar os seus dotes de comunicador, passou pela Chrysler novamente, foi trabalhar para a Packard onde ajudou a desenvolver uma transmissão inovadora e aos 30 regressa ao grupo General Motors com um convite para trabalhar em qualquer uma das marcas do grupo à sua escolha. Escolheu a Pontiac e foi o criador do Pontiac GTO, aquele que é chamado o primeiro Muscle car.
O gajo inventou o conceito que nos deu o Mustang e o Camaro!
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O seu génio não passava despercebido e foi continuando a subir na empresa, sendo o mais jovem de sempre a passar por tão altos cargos e criando ícones tais como o Pontiac Firebird e o Chevrolet Cosworth Vega. DeLorean era um rebelde que gostava de aparecer na televisão, sair com o pessoal do show-business e especula-se que também gostava de “chegar pó ao nariz”. Em 1973 fartou-se da mentalidade retrógrada da General Motors e decidiu criar a sua própria marca – a DeLorean Motor Company.
E aqui é que a história começa a ficar interessante.
John DeLorean não se poupou a esforços: angariou cerca de 100 milhões de libras do governo britânico para construir uma fábrica na Irlanda do Norte, pediu ao Colin Chapman da Lotus para criar o chassi e pediu ajuda a Giorgetto Giugiaro para em conjunto desenharem o carro. E o resultado era altamente promissor, com portas em asa de gaivota desenhadas por uma empresa aeroespacial alemã, painéis em aço inoxidável e suspensão de duplo braço triangular à frente e multi-link atrás. Para além disso, o carro contava também com tantas inovações ao nível da segurança, que inicialmente se chegou a chamar DSV, ou DeLorean Safety Vehicle.
O único problema parecia ser mesmo o motor 2.8 V6 PRV (Peugeot-Renault-Volvo) saído de um Renault 30 que debitava… 130cv.
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Mas cedo começaram os problemas a aparecer.
Para começar, o “Veículo de Segurança” teve que abandonar a maior parte das inovações para poupar custos e portanto começou a sair-se mal em testes de segurança. Para piorar, os primeiros carros demoraram quase 10 anos a sair da fábrica e por esta altura os 130cv de potência eram já obsoletos. Como se isto não bastasse, o preço que dava nome ao carro, 12 mil dólares (DMC-12), tinha-se já transformado em 25 mil dólares e os EUA estavam já submersos numa profunda recessão económica.
Juntemos a isto as alegações de tráfico de droga dirigidas ao proprietário e temos aqui a receita ideal para a autodestruição de uma marca.
Mas e o carro em si? – perguntam vocês.
Problemas sobre rodas! Os primeiros carros vinham com problemas de montagem e mesmo os seguintes ainda traziam inovações que não funcionavam. O para-brisas trazia uma antena embutida que não funcionava e deixava o rádio digital à procura de estações eternamente, o alternador não conseguia gerar corrente suficiente para o carro trabalhar, o capot, que inicialmente trazia linhas longitudinais e uma tampa para o depósito de gasolina, acabou por se tornar demasiado caro e passou a ser liso, obrigando também os proprietários a abrir o capot para abastecer, entre muitas outras pequenas coisas que faziam do DeLorean um carro genuinamente mau.
Mas havia esperança: chegou a ser produzido um protótipo com motor bi-turbo que ia ser lançado em 1984, havia planos para uma versão 4 portas também com portas asa de gaivota e ainda inovações completamente novas para a altura tais como gestão avançada do motor com possibilidade de desativar cilindros, bancos da frente aquecidos e refrigerados, compartimento refrigerado e até suspensão auto-nivelante.
Só faltava mesmo o motor ser central em vez de estar montado atrás das rodas traseiras…


Mas vamos à parte mais interessante.
Para que todas estas inovações fossem reais, John DeLorean precisava de mais dinheiro. O governo norte americano já não estava a achar piada nenhuma ao facto de andar a investir numa marca que não produzia muita coisa e o que produzia era mau e por isso mesmo não estava disposto a abrir os cordões à bolsa. A solução ideal passaria por uma oferta pública, mas como John DeLorean era bastante orgulhoso, preferia ter investimento privado – algo que não estava nada fácil de conseguir. Desesperado, aceitou encontrar-se para negociar um eventual financiamento em troca de tráfico de droga, 100 quilos de cocaína em troca de 24 milhões de dólares. O que ele não sabia é que aqueles negociantes eram agentes do FBI que estavam a gravar tudo. As autoridades tinham sido avisadas por um vizinho de DeLorean que estava preso, dizendo que ele estava desesperado por dinheiro, esperando assim ver a sua pena a ser reduzida.
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Não, isto não é Narcos mas parece! Como toda esta história era um esquema e armadilha do FBI, DeLorean acabou por se safar e saiu em liberdade, mas por esta altura a empresa já tinha falido e o governo britânico já tinha fechado portas à fábrica. Quando lhe perguntaram se ia reabrir as portas à DMC a resposta foi: “Você comprava-me um carro usado?” (Nem novo, quanto mais usado!)
Todo o stock da empresa acabou por ficar para um dos investidores, uma cadeia de lojas americana, que por sua vez acabou por vender tudo em 1997 à DeLorean Motor Company of Texas, empresa que ainda hoje vende peças e DeLorean usados. Esta empresa está a tentar construir 25 carros novos como réplicas, mas as coisas são mais difíceis do que parecem e são mais os atrasos e promessas do que os carros.
A trilogia Regresso ao Futuro
E se a DeLorean do Texas quer regressar ao passado, é muito à conta do filme Regresso ao Futuro. E antes de mais convém dizer que já estivemos na presença de um dos carros que alegadamente foi usado nas filmagens! No filme o carro viaja no tempo assim que atinge as 88 milhas por hora, um feito se calhar mais difícil do que viajar no tempo. Mas é graças ao filme que um carro que se calhar ia ser mais um a acabar no completo esquecimento do mundo automóvel, se tornou num ícone dos entusiastas do cinema e automóveis. E continua aí para nos lembrar que até uma lata se pode tornar num dos carros mais famosos do mundo.
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